Varican

23.07.2001
Até quando ?  ( 1 )

Adriano Benayon*

Se quisermos sair da rota do sofrimento e da deterioração cada vez mais deprimente das condições econômicas e sociais do País, o assunto tem de ser tratado a sério. O processo atual não o é. A serviço de oligarquias, as instituições financeiras "internacionais" impõem proposições impossíveis de serem cumpridas sem provocar desastres extensos e profundos. E isso é engolido pelo governo e por "analistas", ao molho de conversa mole, sem questionar o que interessa. 

As perguntas que todos no Brasil, na Argentina e outros lugares deveriam estar fazendo são as seguintes.

1) Se, durante vinte anos seguidos, fizemos das tripas coração para realizar os programas de "ajustamento", e só colhemos desgraças, por que continuar indo ao FMI?
2) Para quê, se, a pretexto de solucionar problemas, de resto criados pelo modelo econômico de interesse das transnacionais, seremos punidos com renovados sacrifícios, em "troca" dos quais a única coisa que resultará para nós será perder mais patrimônio?

A cada ida ao FMI, vem mais um "ajustamento". As receitas são: cortes orçamentários; juros elevados; escorchamento tributário; privatizações; leis, regulamentos e prática administrativa talhados ao gosto do capital estrangeiro; renúncia a políticas baseadas em nossas realidades e em nossos interesses na energia, alimentos, transportes, saúde, educação, previdência. Em suma, em todas as áreas essenciais ao bem estar, ao desenvolvimento e ao emprego. 

O governo está, de novo, recorrendo ao FMI, sem que haja transcorrido sequer um ano do acordo anterior. Anunciaram a meta de elevar o superávit primário do orçamento ( excesso da receita sobre as despesas, excluídas as de juros) de 3% para 3,5% do PIB. Na própria Europa, o desenvolvimento tem sido prejudicado pelas amarras do Tratado de Maastricht, que obrigam os países membros da União a não ter déficits públicos de mais de 3% do PIB. Esse limite refere-se ao déficit mesmo ( não há essa história de orçamento primário ).

Conta os juros, mas esses não têm o mesmo peso que no Brasil. De qualquer modo, é uma restrição estúpida. Notável: os EUA, desmentindo, com razão, os compêndios de economia, tiveram, à época da Segunda Guerra Mundial, déficits fiscais de mais de 100% do PIB. E só desse modo superaram os níveis de produção anteriores à depressão dos anos 30. Ganharam muito, e nem tiveram inflação tão grande, a qual, de resto, pôde ser controlada. Outra coisa: as despesas de investimento na infra-estrutura e na produção não se deveriam contar para o déficit.

Imaginem a situação do Brasil, onde a dívida pública aumenta de forma brutal, e seus juros já chegaram a quase 150 bilhões e caminham para R$ 200 bilhões por ano. Nesse andar, o FMI e o Banco Mundial vão exigir superávit primário ainda maior, para reduzir o monumental déficit que resultaria de pagar juros e de, ao mesmo tempo, não cortar tudo o mais, a saber, tudo que é essencial para a vida. Já levaram o Brasil às trevas do apagão. Aonde o levará mais um pacote?

Cuidar dos nossos problemas, sem nos fazer de idiotas, envolve tratar da economia real e da estrutura de mercado, por meio de um modelo que faça cessar a tendência de os brasileiros, como os argentinos, serem postos em duas condições apenas, a de empregados e a de desempregados, esta sempre em crescimento. No modelo atual, os patrões brasileiros são espécies em extinção. Só otários e sicários dirão que é a mesma coisa ser patrão e ser empregado, ser senhor e ser escravo. Na dinâmica da globalização, os empregados estão perdendo todos seus antigos direitos. E que dizer dos desempregados?

A posição real de uns e de outros, qualquer que seja o nível de qualificação, aproxima-se da escravidão. O trabalho é relegado à condição de mercadoria, em mercados nos quais aumenta sempre a concentração do poder em pequeno número de mega-empresas. Do lado da procura de emprego, é imensa e em quantidade crescente a gente que precisa trabalhar para viver. A única solução contemplada pelos donos da globalização, que não cessam de concentrar e de demitir, é o maltusianismo: reduzir a população drasticamente e por vários meios.

* Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de "Globalização versus Desenvolvimento"

benayon@solar.com.br


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