Varican

23.07.2001

Barbas de Molho

Adriano Benayon*

Segundo provérbio antigo, quando as barbas do vizinho começam a arder, convém pôr as próprias de molho. Certamente não nos ajudam nisso as recomendações dos economistas ouvidos, há anos, pelos jornais e revistas. Em relação à própria Argentina, nas páginas de economia, não há ninguém mostrando o absurdo que é a repetição de mais um ciclo de medidas "para zerar o déficit público". 

Os cortes na despesa pública - e só os juros da dívida não os sofrem - têm resultado em reprimir a procura, os investimentos e a produção. Assim se reduz a base de renda sobre a qual o Estado poderia elevar as receitas tributárias sem podar o consumo e o investimento. Como são estes que fazem andar a economia, é lógico que ela não anda senão para trás, além de o déficit orçamentário nunca terminar. Os "analistas" aplaudem, pois, mais uma rodada de pressão estranguladora no pescoço da Argentina. Não é hostilidade só a ela, já que eles aprovam o mesmo tratamento para os brasileiros e para outros povos.

Que discutem os diretores da opinião pública? Principalmente o sistema cambial e monetário e a taxa de juros. Comparam os malefícios da dolarização total com os estragos também homéricos de uma desvalorização da moeda argentina, de 100% ou mais. Essa total falta de alternativa, sob a forma de duas "alternativas", é herança do sistema cavalar, da paridade entre o austral e o dólar, introduzido, há alguns anos, pelo ministro de nome eqüino. É um sistema próprio das colônias, semelhante ao "currency board" (junta, como a de burros, monetária). Sob ele, o dólar usurpou da moeda local a função de reserva de valor, e a dívida pública interna mobiliária atada ao dólar passou de 95% do total. O povo argentino está sob tortura da oligarquia mundial, e contra essa não aparece ONG alguma para defender direitos humanos. 

Os lances recentes são conhecidos. Os encargos no refinanciamento de dívida externa atingiram 16 pontos percentuais mais a taxa dos títulos do Tesouro dos EUA. Esses juros impossíveis de servir poderão a cair um tanto, se o Senado da Argentina aprovar o acordo para cortar mais a carne do País, entre o governo federal e as províncias. A finalidade, como sempre, é manter a falsa aparência de saúde financeira nos balanços de bancos dos EUA, europeus, etc., enquanto estes se creditam mais juros e comissões de "renegociação". Porém, a atenuação do quadro crítico durará ainda menos que das outras vezes, já que, no processo da dependência, a deterioração cada vez prevalece mais. 

O modelo dependente torna igualmente frágeis os fundamentos da economia brasileira. Do contrário, a moeda nacional não teria desmoronado mais uma vez, nem se estaria apelando de novo ao FMI, só porque a situação na Argentina avança no caminho da desintegração. A diferença entre a situação do Brasil e a da Argentina é apenas de tempo e de grau. Não é de natureza, pois ambos países estão desorganizados e desestruturados pelo modelo, submetidos às transnacionais e aos "investimentos" diretos estrangeiros, com o séqüito de capitulações que isso acarreta: transferências, dívidas, juros, privatizações, regulamentação a serviço dos monopólios e oligopólios.

Na Argentina os juros foram para a estratosfera sem que o governo o pudesse impedir. No Brasil é a taxa de câmbio que escalou para as nuvens, apesar de o governo não desejar desvalorizar a moeda. Enquanto isso, a mídia prossegue em seu negócio, o de fomentar ilusões. De fato, o arsenal de ferramentas dos "analistas" se limita às políticas fiscal, monetária e cambial, as três submetidas a tais "constrangimentos", que a economia desce a patamares cada vez mais fundos do poço. E isso seguindo qualquer um dos conselhos ou combinações de vários deles.

Continua no artigo " Até quando? "

* Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de "Globalização versus Desenvolvimento"

benayon@solar.com.br


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