Varican

07 de janeiro de 2002

A Farsa da globalização

Carlos José Pedrosa


Nestes tempos supostamente modernos, em que a moda está em adotar as receitas ditadas por Wall Street, prontamente seguidas à risca pelos "estilistas" de Brasília, somos atingidos diretamente pelos petardos globalizantes. De todos os lados vêm-nos os arautos dessa pseudo-nova ordem, apregoando suas vantagens e prometendo a prosperidade na terra e a felicidade eterna no céu. Como se fosse uma varinha mágica, eis que tudo estará diretamente ao nosso alcance: a alegria no lugar da tristeza, a saúde no lugar da doença, a riqueza no lugar da pobreza, a felicidade eterna no lugar da tragédia terrena. Como uma panaceia, eis que de repente os países pobres serão países ricos o bastante para garantir aos seus cidadãos uma vida de primeiro mundo. Tudo isso seria muito bom... se fosse verdade.

Começando pelos países do primeiro mundo, vemos que nem eles praticam realmente o livre comércio, gradativamente substituído pelo protecionismo disfarçado. Os países ricos insistem que os países po- bres, também chamados de países em desenvolvimento, devem aderir ao livre comércio e abrir seus mer- cados para os produtos dos países ricos. Aí está a armadilha. Enquanto insistem nessa abertura, adotam uma política protecionista, criando barreiras à entrada dos produtos do terceiro mundo. O leque desses instrumentos é vasto e inclui barreiras tarifárias e não tarifárias. Também inclui outros procedimentos, o que, no final, chega ao mesmo resultado: quem sempre perde somos nós.

Outra armadilha está disfarçadamente montada na OMC – Organização Mundial do Comércio. Quem imagina que ali encontrará proteção está redondamente enganado. De início deve-se atentar para o fato de que a prioridade da diplomacia americana é proteger os interesses das empresas americanas, mes- mo que não tenham razão Aliás, no mundo das relações internacionais, incluindo o comércio, as grandes potências sempre têm razão. É assim que as coisas acontecem. Quando os países ricos vendem seus produtos mais baratos, é porque os países pobres são incompetentes, têm custos elevados e não sabem obter economias de escala. Quando são esses mesmos países que conseguem vender mais barato, logo são acusados da prática de dumping e atacados pela artilharia da OMC e dos seus capangas. 

O Brasil conhece bem essas armadilhas. As teses da OMC estão direcionadas para satisfação dos in- teresses dos países ricos. Quem pensa o contrário, que se arrisque numa disputa. Quando a briga é entre os grandes, vence o maior dos dois. A Bombardier, adversária canadense da Embraer, conheceu a outra face da moeda. Venceu uma disputa para a venda de vagões ferroviários para o Metrô de New York, mas teve que construí-los nos Estados Unidos para não perder o negócio. Os Estados Unidos, justamente o país que mais defende o livre comércio, também têm essa prática. Ou os vagões da Bombardier seriam fabricados nos Estados Unidos, ou o Metrô não os compraria. As barreiras tarifárias e não tarifárias inviabilizariam o negócio. É que na prática, a teoria é outra.

Assim como no futebol é difícil um atleta, durante uma partida, não trombar com o adversário, no comércio internacional é muito difícil não trombar com os interesses dos países ricos. Os países pobres podem tentar driblar, usando as regras enquanto elas não mudam. Não pode contar com o árbitro, porque a OMC não tem sido nada imparcial nas suas decisões. A prática ensina que é muito difícil vencer uma disputa com uma grande potência comercial. Isto porque as instâncias da OMC estão dominadas pelas multinacionais, que sempre decidem pelos seus interesses, ou pelos interesses dos seus países de origem. Numa pendência com o Canadá, o Brasil sentiu o peso da política protecionista da própria OMC. Adotando os mesmos instrumentos e os mesmos incentivos, o Canadá foi apenas advertido; o Brasil foi condenado. Em terra de gigantes, pigmeu só serve para apanhar. Foi o que o Brasil aprendeu na OMC. 

A política agrícola da União Européia cria barreiras à entrada de produtos agrícolas do terceiro mundo, não raro adotando medidas que abalam propositalmente a credibilidade desses países. No entanto, são os que menos têm moral para criticar as condições sanitárias ou os incentivos fiscais. Os produtos agrícolas europeus são os mais subsidiados do mundo, mas nenhum deles, até hoje, foi condenado pela OMC. Isto porque a União Européia é dominada por Alemanha, França, Holanda, Bélgica, Itália e Ingla- terra, todos países de peso na economia européia e mundial, com forte influência na OMC. Todos, entre- tanto, querem vender seus produtos para os países do terceiro mundo, mas se recusam a reconhecer que o comércio internacional é uma via de mão dupla. Quem compra também quer vender. Numa política de toma lá, dá cá, como deve ser o comércio internacional, não se pode aceitar uma prática na qual apenas um dos lados ganhe sempre. Esta tem sido a prática vergonhosa dos gigantes do comércio internacional, tanto na América do Norte como na Europa.

A diferença entre as tantas farsas existentes nas relações internacionais é que esta é bem visível: não vê quem não quer. Até um cego nota as armadilhas e as contradições. Os países industrializados, ainda com saudades do colonialismo político, insistem na abertura dos mercados pelos países em desenvolvi- mento. Ao mesmo tempo criam barreiras à entrada dos produtos desses países. Entende-se a globalização como integração econômica, numa base de cooperação e troca, havendo reciprocidade na distribuição dos benefícios do progresso e da tecnologia. No entanto, a globalização, como está sendo praticada pelos países industrializados – diga-se países ricos – não tem o objetivo de levar a todos os países os benefícios do desenvolvimento, acelerar o progresso de cada país ou gerar o bem-estar das populações, o que seria até aceitável e benéfico. O objetivo primordial da globalização é instrumentalizar e executar os preceitos do Consenso de Washington, mantendo e ampliando a hegemonia dos países ricos e fazendo com que os países em desenvolvimento voltem a ser simples colônias econômicas, depois políticas. A globalização é a nova forma de colonialismo posta em prática pelos países desenvolvidos, para seu próprio bem-estar e para o crescimento dos seus negócios e das suas empresas, em nível mundial. É a globalização da miséria. É preciso lutar para conter o avanço desse inimigo, cujos principais agentes estão em nosso próprio meio, traindo nosso país, nossas tradições e nossos interesses, com um programa chamado de privatização, em troca de benefícios nas ilhas Cayman. Mas, para isto será preciso um governo forte, que realmente represente os interesses e aspirações do povo e não dê as costas para os interesses nacionais, o que está ficando cada vez mais distante em um país que é um deserto de homens sérios e de idéias. 

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Carlos José Pedrosa

cjpedrosa@uol.com.br
 

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