Varican

20.06.2000

Até quando?

Adriano Benayon*

A população do Brasil pode tirar seus cavalos da chuva. Pois a tempestade tende a se agravar. Estão enganadíssimos os que esperam alguma melhora, enquanto perdurar o atual esquema de poder. Este é muito mais profundo e amplo do que os três "poderes" do Estado, dos quais os "eleitos" são os mais comandados por um poder "mais alto", o qual nada tem de elevado do ponto de vista espiritual. Trata-se da oligarquia econômico-financeira concentradora, sediada no exterior e representada no País por prepostos nos setores privado e público. Por mais execrável que seja a "política" do Executivo federal no atual "mandato", nada de positivo adviria da simples substituição dele, imediata ou daqui a dois anos. Isso porque, na estrutura de poder aqui implantada, a oligarquia conta com trunfos mais do que suficientes para continuar "elegendo" presidentes e bem mais do que a maioria absoluta do Congresso. Esses trunfos são:

1) o dinheiro concentrado por aquela oligarquia;
2) a "mídia", que lhe pertence na virtual totalidade;
3) a máquina e as verbas governamentais;
4) os institutos de pesquisa de "opinião";
5) as cumplicidades e cooptações de formadores de "opinião";
6) a lavagem, ou antes, a poluição cultural emanada das indústrias do entretenimento, do marketing e da publicidade, etc. E, se preciso, o sistema de poder dispõe do terrorismo, da fraude eletrônica e da ingerência "internacional". 

A Constituição, a qual se funda nas soberanias nacional e popular, está sendo, portanto, permanentemente violada. Não há Estado de direito senão no papel. Está na hora de os brasileiros se organizarem, para deixarem de ser manipulados, explorados e tratados como gado. Eles deveriam estar cansados de apenas assistir à deterioração incessante das relações sociais e ao aumento da violência e da miséria. No presente sistema, não há como não prosseguirem os escândalos, a corrupção e o crescimento exponencial das dívidas externa e interna, a remessa acelerada dos recursos do País ao exterior e a transferência da propriedade de tudo que aqui existe para empresas transnacionais sediadas no estrangeiro.

Em trabalhos recentes sobre a "privatização", i.e, sobre a negociata da alienação do BANESPA, arrolei nove fatores de criação de dívidas públicas só para enriquecer os grupos econômicos que se cevam com os juros das dívidas. Não se trata em caso algum de captar dinheiro para construir infra-estrutura econômica ou sequer para atenuar as intoleráveis condições sociais. A prodigalidade com o dinheiro da sociedade só é comparável à avareza com que são reduzidas e cortadas despesas indispensáveis ao País. Se houvesse liberdade de informação, já estaria desmoralizado o discurso da "austeridade" e da necessidade de obedecer às imposições das instituições financeiras "internacionais", como o FMI e o Banco Mundial, de que são porta-vozes:

1) a equipe econômica do "governo";
2) o Executivo federal;
3) a maioria mais que absoluta do Legislativo federal. 

Exposto o atacado, vejamos o varejo recente. O patrimônio do Fundo de Amparo ao Trabalhador ( FAT ), atualmente em R$ 47,7 bilhões de reais, vem sendo usado pelo BNDEs para, entre outras finalidades, financiar bancos e empresas estrangeiras beneficiárias das negociatas a que se dá o nome, também falso, de privatizações.

Levantamento da Gazeta Mercantil ( 13.06.2000 ), que abrangeu 17 ex-estatais, indica que elas vão incorporar ágios no valor de R$ 21,1 bilhões. Ou seja: se nos leilões de "privatizações" a alienação teve preço acima do previsto nas suspeitas avaliações feitas por consultorias estrangeiras, a diferença é compensada por créditos fiscais. As 17 empresas obterão, segundo o jornal, créditos de mais de R$ 6 bilhões, ou seja, um terço dos "ágios". Quase todas sob controle estrangeiro, elas são dos setores de gás, eletricidade e telecomunicações. Apenas esse tipo de subsídio – e há inúmeros – monta a uma centena de bilhões de reais, já que existem mais de 200 "ex-estatais". A isso é de adicionar outros R$ 100 bilhões em prejuízos causados ao Tesouro Nacional pelas "privatizações" do setor financeiro ( vide meus artigos recentes sobre a do BANESPA ).

O Tesouro, via Banco Central ( BACEN ), despejou R$ 39 bilhões de reais no PROER, para limpar passivos de bancos privados, antes de entregá-los graciosamente a bancos estrangeiros. Desse montante, do qual mais da metade não foi recuperada, R$ 12 bilhões foram omitidos nos balanços do BACEN, conforme verificou a CPI do Sistema Financeiro, apesar do controle que o "governo" exerce sobre o Congresso. Somada essa quantia às demais não reavidas desses bancos, o total chega a R$ 42 bilhões.

O Tribunal de Contas da União mostrou que apenas cinco bancos intermediaram, de 1991 a 1998, transferências ao exterior no total de R$ 126 bilhões, na conta CC5. Essas operações são realizadas por conta de pessoas físicas. São, pois, distintas das remessas praticadas pelas empresas transnacionais por meio de 15 outras modalidades. 



* - Adriano Benayon, Doutor em economia, é autor de "Globalização versus Desenvolvimento". 
E-mail: benayon@linkexpress.com.br
 

Ver : Até quando - 1 e Barbas de molho .

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