Varican

26.06.2000

Autodeterminado, o Brasil Seria Rico.

Adriano Benayon *

As estatísticas quantificam a poupança interna no Brasil em cerca de 16% do produto interno bruto ( PIB ). Elas ignoram, porém, que 20% ou mais do PIB vazam para o exterior, transferidos por empresas transnacionais ( ETNs ) a títulos diversos, por meio de quinze ou mais mecanismos de fazer despesas no estrangeiro em favor das matrizes.

Sem esse vazamento de recursos, a taxa bruta de poupança seria de, no mínimo, 35% do PIB.  Vejamos o que isso implica. A relação histórica produto/capital ( P/C ) é estimada em 1 : 2,5.  Assim, em números índices, um estoque de capital de 250 daria 100 de produto. Investindo-se 35% do PIB, o estoque cresceria para 285 ( 250 + 35) . Dividindo 285 por 2,5 = 114. A taxa de crescimento anual seria, portanto, 14%. Aplicando-se essa taxa ao valor atualizado do PIB de 1958, U$ 135 bilhões ( US$ 19 bilhões vezes 7,1, para corrigir a inflação do dólar nos últimos 40 anos ), resultam US$ 25,5 trilhões, quantia mais de 3 vezes maior que o atual PIB dos EUA.

Mesmo que só se investisse 25% do PIB, caso em que este cresceria a 10% aa., ainda assim ele se teria elevado para US$ 6,1 trilhões, valor próximo ao dos EUA, de US$ 7,8 trilhões. Coteje-se isso com os míseros US$ 580 bilhões do atual PIB do Brasil, nas estatísticas oficiais. E, embora a comparação choque, ela está longe de retratar a realidade. Eis porque.

1) No PIB oficial são computados os excessivos juros e tributos que pesam sobre os brasileiros, os quais, somados, chegam a 40% desse PIB. Portanto, o PIB real não passa de US$ 350 bilhões. 
2) Muito mais relevante que o PIB é o produto nacional bruto (PNB). Ora, o PNB é muito menor que o PIB, já que, ao contrário deste, não inclui a renda obtida no Brasil pelas empresas transnacionais e pelos demais residentes no exterior. Assim, o PNB real não passa de US$ 250 bilhões. 
3) No cálculo do PIB que resultaria de um modelo autônomo, em vez do modelo dependente, não computei as elevações do PIB oficial no Brasil resultantes de meras modificações nos métodos de cálculo, que inflaram os números em, pelo menos, 50%. Contando-as, o PIB alcançaria 9,1 trilhões, crescendo a 10% aa., ou US$ 38,2 trilhões, a 14% aa.
4) A concentração de renda no Brasil é das maiores do Mundo.
O PIB por habitante (pro-capite), mesmo na projeção mais modesta para o PIB, seria de U$ 37.000, quantia superior à dos EUA (US$ 30.000). Atualizado, o valor em 1958 do produto pro-capite do Brasil, foi US$ 2.100. Em 1999 ele está sendo estimado em US$ 3.500. Teria aumentado 67% em 40 anos, i.é., 1,3% na média anual Ora, o progresso anual do PIB por habitante é de 11,65% ou 7,65% aa., nas projeções acima. E o PIB real de US$ 350 bilhões dá US$ 2.100 por habitante, ou seja, a exata cifra de 1959, enquanto que o PNB real de US$ 250 bilhões significa US$ 1.500 por habitante. Conclui-se que o atraso dos últimos anos, decorrente dos vazamentos suscitados pelo modelo dependente, fez retroceder o padrão de vida médio a nível inferior ao dos anos 50.

Mais grave, os danos intensificam-se, fazendo regredir o País de modo acelerado e profundo. De fato, os números acima não expressam o aumento exponencial das dívidas públicas externa e interna, as quais, juntas, ascendem, no ano 2000, a US$ 600 bilhões ou 1,1 trilhão de reais, cifra superior ao PIB oficial e equivalente a 2,4 vezes o PNB real. A dimensão das dívidas agrava os efeitos, depressivos para a economia, causados pelas transferências ao exterior das transnacionais. Sob a batuta do FMI, o desequilíbrio decorrente das duas coisas faz reprimir a demanda, bem como os gastos e investimentos essenciais, na vã ( ou apenas declarada ) tentativa de reduzir os déficits fiscal e externo, sempre em alta. Ademais, a dimensão das dívidas é fator permanente de inflação, a qual tende a se tornar explosiva, apesar de aquela repressão ser cada vez mais draconiana.

Ainda mais devastadora tem sido a ocorrência, junto com as dívidas, de coisas mais sérias:

1) a desnacionalização por inteiro do setor privado nacional;
2) a subordinação total aos oligopólios transnacionais das poucas empresas sobreviventes;
3) a dilapidação de patrimônio público mais fantástica da História Mundial sob o falso rótulo de "privatizações". Só na da Vale do Rio Doce, houve alienação, sem ônus para os "adquirentes" de patrimônio imensurável e em relação ao qual as análises, apenas acadêmicas, trabalham com cifras de trilhões de dólares.

Adriano Benayon é doutor em Economia e autor de "Globalização versus Desenvolvimento"  benayon@linkexpress.com.br

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