Crescimento x Desenvolvimento

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Crescimento x Desenvolvimento


Prof. Marcos Coimbra

"Professor Titular de Economia na Universidade Candido Mendes, Professor na UERJ e Conselheiro da ESG"

O presidente do Banco Central, ex-assessor do megaespeculador Sr. George Soros, afirmou, recentemente, que o país deverá crescer este ano mais de 4% e, nos anos seguintes, até a taxas superiores. Antes de mais nada, é nosso real desejo que, de fato, isto ocorra, pois o Brasil não suporta mais a manutenção do estado de estagnação, no qual se encontra já há algum tempo, mais precisamente desde a posse do presidente FHC. Contudo, para que tal previsão concretize-se, é importante refletir sobre algumas questões relevantes.

Primeiramente, existe um fator inibidor representado pela baixa taxa de investimento existente na nossa Economia, mantendo-se em torno de 18% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto na década de 70 chegou a ser de 25%. Esta deficiência poderia ser compensada pelo aumento da importação de máquinas, equipamentos e outros. Porém tal providência provocaria um aumento considerável no déficit do balanço de pagamentos em transações correntes, ainda acima de 4% do PIB, o que geraria graves problemas para a nossa já combalida Economia.

Outro ponto a considerar reside na análise do nível da atividade econômica, o qual é função do montante da demanda agregada, expresso pelo valor despesa interna bruta (DIB). A DIB é constituída pela soma do consumo das famílias, do consumo do governo, do investimento e das exportações. No momento, como já vimos, o investimento é modesto. A recuperação viria, então, por onde? As exportações estão crescendo timidamente. O consumo do governo, em seus três níveis, está sendo brutalmente refreado, em especial com a introdução da chamada lei Camata e da famigerada lei de responsabilidade fiscal. E como esperar uma recuperação proveniente do consumo das famílias, numa conjuntura em que o desemprego progride, os salários reais diminuem e a recessão ainda resiste ? Fica então difícil acreditar numa recuperação real da Economia, no nível previsto pelos mais otimistas. Para haver crescimento, é vital haver não só um aumento da oferta global, como também da demanda global.

E é necessário recordar a diferença existente entre os conceitos de crescimento econômico e desenvolvimento econômico. O crescimento econômico caracteriza-se por um aumento quantitativo na produção de bens e serviços, graças a atuação de um ou de dois fatores de produção preponderantes, geralmente capital e tecnologia, expresso, por exemplo, pelo aumento do PIB. Já o desenvolvimento econômico é caracterizado por um aumento, não só quantitativo, como também qualitativo, em função da participação harmônica de todos os fatores de produção, consubstanciado por um processo de transformação social, com o progressivo deslocamento da mão-de-obra do setor primário para o setor secundário e para o setor terciário, expresso , por exemplo, pelo crescimento do PIB, com minimização das disparidades de renda, a nível pessoal, regional e setorial.

Agora mesmo, a mídia amestrada bate o bumbo para o crescimento do PIB, no primeiro trimestre do corrente ano, em relação ao mesmo período ao ano anterior, de pouco mais de 3%. Esquecem apenas de informar que a comparação, se bem que correta do ponto de vista metodológico, induz a incorreções para leigos, pois a base de comparação, ou seja, o primeiro trimestre de 1999, foi fraca, tendo o país experimentado seu processo de recessão agravado, em função da desvalorização da moeda brasileira, o real, o que tende a inflar os resultados que forem referenciados a esse período. E, apesar de representar um avanço, mesmo um crescimento do PIB de 4% em 2000 será modesto, se analisarmos nossas necessidades, bem como a taxa histórica de crescimento do PIB brasileiro, ao longo dos tempos, de 7% ao ano.

Contudo, para que os bons tempos da Economia Brasileira retornem, é necessário uma mudança radical no atual modelo econômico adotado pela administração FHC, de inteira subserviência aos ditames do sistema financeiro internacional, com a abdicação da Soberania Nacional, apenas capaz de fazer o Brasil retornar à situação de colônia. Teremos que colocar no poder outra administração, compromissada verdadeiramente com os interesses nacionais, capaz de multiplicar por menos um o atual modelo, substituindo, de início, a "variável-meta" de estabilidade da moeda para pleno emprego dos fatores de produção com sua digna remuneração. Até lá, teremos que contentar-nos com as "migalhas" deixadas pela potência hegemônica e por seus verdadeiros condutores.

P.S.: Fazemos um alerta aos funcionários do Banco do Brasil, em especial aos aposentados, para votarem na Chapa 3, nas eleições em curso para a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, por ser, a nosso juízo, a que mais representa, no momento, os anseios e aspirações dos seus associados, ameaçados até de risco quanto ao pagamento de suas aposentadorias, a partir de 2005, segundo palavras do seu atual presidente.

mcoimbra@antares.com.br

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Artigo elaborado em 13.05.2000 para o Monitor Mercantil.


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