Concentração, o Nome da Globalização.

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Concentração, o nome da globalização

Adriano Benayon

"Continua crescente o movimento de fusões e aquisições de empresas industriais e financeiras, em todo o Mundo. O valor de mercado das companhias fundidas ou adquiridas vem batendo recordes todos os anos. Em 1998 atingiu U$ 2,6 trilhões. Em 1999 passou de US$ 3,3 trilhões ( algo equivalente a seis vezes o PIB do Brasil com juros e tudo ) .

Pelo andar da carruagem até agora, em 2000, esse fator de concentração ( ele não é o único ) promete superar as marcas anteriores. Este ano, a Pfizer adquiriu a Warner Lambert formando a segunda maior firma farmacêutica do Planeta, com valor de mercado de US$ 90 bilhões. Pouco antes, a primeira, a Glaxo comprou a Smith Kline por US$ 76 bilhões, ficando a Galaxo-Smith Kline avaliada em US$ 182,4 bilhões.

No mesmo setor, a número 4 dos EUA, a Monsanto comprou a Pharmacia-Upjohn da Suécia. De porte ainda maior foi a criação de um conglomerado de indústria pesada e comunicações, com a absorção da Mannesmann, alemã, pela Vedafone-Airtouch, britânica ( valor de mercado da nova empresa: US$ 178,7 bilhões ).

Da área de entretenimento juntaram-se Warner e EMI Music ( US$ 20 bilhões ).

Os bancos alemães, Deutsche e Dresdner constituem, agora num só, o segundo maior do Mundo ( valor de mercado: US$ 80 bilhões ). Essa união se insere numa série que envolve os grandes bancos europeus, dos quais o HSBC, com sede em Londres, é o primeiro. Também nos EUA e no Japão a concentração é acelerada. Algo semelhante ocorre nos seguros e outros segmentos financeiros.

A recentíssima junção da General Motors ( GM ) com a FIAT, ainda não se declara assim, mas aponta para a absorção da italiana pela norte-americana em futuro não remoto. Só há duas montadoras de veículos automotores controladas por capital norte-americano: a própria GM e a Ford. Em outros países centrais só no Japão o capital nacional detém umas quantas.

Os franceses, duas, com muita associação entre ambas. Os alemães, duas, tendo a Mercedes ( Daimler Benz ) adquirido no ano passado a norte-americana Chrysler, hoje Daimler-Chrysler. Mundialmente o número das mega-montadoras já caiu para menos de 10, enquanto o poder delas sobre os mercados vai-se tornando absoluto.

Que dizer desse poder em países cujas economias estão quase que por inteiro desnacionalizadas? Exemplo: um espelho retrovisor lateral de um Vectra ( GM ) custa R$ 400,00 aos espoliados brasileiros. É para coisas assim que as montadoras são agraciadas com inimagináveis subsídios, como se fosse pouco desfrutarem imperialmente do mercado.

Os motores da globalização são a mídia e os demais instrumentos da pseudo-educação e da pseudo-comunicação. E seu combustível são conceitos falsos, repetidos à exaustão, inclusive o de que a globalização é inevitável.

A concentração econômica é "vendida" como fator de eficiência e de redução de custos. Mas esta só aproveita às mega-empresas. Com cada vez maior poder de mercado, elas não repassam aos preços a queda dos custos. A sociedade perde dos dois lados: empregos são eliminados, e os preços são determinados por quem os aufere. Até os anos 80, a maior parte das fusões e aquisições se dava entre firmas controladas por capitais do mesmo país. Na atual "ordem"( só se for da espécie da "nova ordem" anunciada pelo nazismo ), os Estados nacionais - que haviam, antes, conduzido os processos de desenvolvimento - vêm sendo forçados a abolir os controles de capital.

De fato, a Organização Mundial do Comércio ( OMC ) e os próprios acordos de integração regional, como os da União Européia, ALCA, etc. impõem o livre movimento internacional de capitais aos povos desavisados e enganados cujos "governos" aderiram a essas organizações. No mesmo sentido opera a máquina da mídia.

Esta combina a distorção dos fatos com o fomento a ideologias fabricadas, especialmente nos meios acadêmicos, sob encomenda da oligarquia concentradora. Alguns dos fetiches produzidos por esses praticantes da magia negra, autointitulada intelectual, são:

a) desregulamentação;
b) a entronização do "mercado" - sem a interferência do Estado em defesa do bem comum - como ordenador das relações econômicas;
c) privatização. Até mesmo importantes economias nacionais, como a da Itália, Alemanha e França, estão sendo hoje minadas, ficando seus Estados à mercê de mega-empresas transnacionais cujo controle está no eixo EUA/Londres.

O Tratado de Maastricht, que formalizou a União Européia, instituiu uma camisa de força "liberal", os orçamentos equilibrados e demais ferramentas bloqueadoras do desenvolvimento nacional, única base válida da verdadeira cooperação internacional. Além disso, a Itália foi desestabilizada com "brigadas vermelhas" e com a operação "mãos-limpas". O resultado é que o capital italiano está deixando de figurar entre os controladores de mega-transnacionais. É nesse contexto que deve ser lido o "casamento" da FTAT com a GM.

E nós, brasileiros, onde entramos nisso tudo? Nem precisamos dar a resposta óbvia, que é o cano. Têm surgido no País verdadeiras iniciativas empresariais e tecnológicas, apesar de desamparadas e perseguidas por um sistema de poder que, em nome da "livre concorrência", as trata de esmagar.

E, em quase todos os casos, o tem conseguido, usando como armas não só a abertura total aos "investimentos" diretos estrangeiros, mas também o favorecimento a estes com: subsídios e outras vantagens; e, mais ainda, o emprego das instituições financeiras mundiais ( Banco Mundial, BID ) e de órgãos oficiais do próprio País ( BNDES ) para torpedear os empreendimentos controlados por nacionais.

Adriano Benayon, Doutor em economia, é autor de "Globalização versus Desenvolvimento".
E-mail:   benayon@linkexpress.com.br


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