O Fundo Monetário em Nairóbi.


Varican

21 de setembro de 1973

O Fundo Monetário em Nairóbi

Eugênio Gudin

Em 30.01.00 escrevi um artigo intitulado "Crise. Caminho para o Aprendizado", o qual encontra-se disponível na URL <http://orbita.starmedia.com/~varican>, ou poderá ser solicitado diretamente ao autor através de e-mail. Em um dos parágrafos do artigo dizia eu: "Estudos e acordos políticos, entre os países desenvolvidos, criando mecanismos de defesa de possíveis contaminações de crises cíclicas internacionais, iniciaram-se em 1971, tanto nos Estados Unidos, quanto nos principais países da Europa Ocidental, formando os G7, ao constatarem a falência dos mecanismos do "FMI" em resolver problemas de desequilíbrios de Balanço de Pagamentos. Para os que não sabem, o órgão foi criado para funcionar como estrutura preventiva de desequilíbrios de Balanço de Pagamentos, entre seus países membros. Teria grandes volumes de recursos (quotas DES) e, poder político para resolver, preventivamente, os desequilíbrios cambiais, como de uma Câmara de Compensação Automática, e não, como tem sido sua atuação. Com sua estrutura falida, sobrevivendo às custas da Lei de Parkinson, atuando após ocorrerem as crises cambiais, apagando incêndios de países corruptos e perdulários, através de recursos obtidos com "vaquinhas" emergências entre os G7. Na verdade, atuando como se fosse agência de classificação de crédito para banqueiros internacionais, SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) dos bancos.

O principal objetivo deste trabalho seria o de demonstrar que os artigos do mestre Gudin foram escritos, e publicados, em um período dito de censura e arbítrio dos governos militares, em plena vigência do AI 5, em um jornal do padrão do "O Globo", do Rio de Janeiro, cabendo à seguinte colocação: Na atual Democracia Meia-Sola brasileira o mestre Gudin teria espaço na imprensa?

Outros objetivos da série seriam o de demonstrar que nosso país já foi respeitado, tanto internamente, quanto externamente, pelos valores intelectuais de nossos pensadores, mesmo sendo brasileiros natos, fato impossível de ocorrer na atualidade, sem um título em uma universidade americana. Processo claro de colonização, haja vista espaços concedidos pelos meios de comunicação à estrangeiros, escrevendo, julgando, impondo, condenando sobre problemas brasileiros, em detrimento de grandes personalidades intelectuais de nosso país bem como, demonstrar que nossos problemas econômicos, sociais e políticos são os mesmos, em quaisquer dos períodos da história que queiramos estudar.

Vejamos o que escrevia o Mestre e Professor Eugênio Gudin em seu artigo no "Jornal O Globo" do Rio de Janeiro, publicado em sua edição do dia 21 de setembro de 1973, com o título "O FUNDO MONETÁRIO EM NAIRÓBI":

"Mesmo sem qualquer espírito de cassandrismo, não posso crer em resultados positivos da próxima reunião do FMI em Nairóbi, tanto no que diz ao equilíbrio entre as moedas, especialmente o dólar, como, ainda, no tocante à formulação de um novo esquema monetário internacional para substituir o de BRETTON- WOODS.

Há quem pense e diga que o problema consiste na falta de confiança nas paridade existentes e no fluxo desordenado do movimento de capitais, e daí conclua recomendando criar amplas facilidades para financiar esses movimentos de capitais, através do FMI ou do novo Fundo Monetário Europeu.

Não me parece entretanto que haja qualquer deficiência de financiamento internacional. O comércio exterior continua em franca expansão, o mesmo se podendo dizer dos investimentos internacionais, especialmente os diretos.

O sistema falhou por ter sido ultrapassado o limite de tolerância dos bancos centrais para absorver o fluxo de dinheiro (monetary inflows) vindo de fora. Maiores facilidades de crédito só fariam agravar a situação.

A culpa imputável a BRETTON-WOODS seria a de sua implicação inflacionaria. Justamente o contrário do que se receava ao tempo de sua criação. Receava-se um bis deflacionário e conseguinte contração do comércio internacional (devido em parte à correção unilateral dos deficitários e não dos países superavitários também). Na realidade, o que se verificou foi uma explosão de liquidez, oriunda de ser o padrão-dólar uma máquina de inflação. O que se esperava era que as paridade fixas constituíssem um freio aos desequilíbrios dos balanços de pagamentos, como observara o Professor Viner.

Milton Friedman dizia que "num regime de padrão-dólar, com paridade fixas, as políticas monetárias dos outros países seriam determinadas pela política monetária americana". De 1965 a 1970 (Vietnam) os Estados Unidos lideraram a inflação; mas de 1971 a 1973 as taxas de expansão monetária e de inflação de preços passaram a ser menores nos Estados Unidos do que na Europa. O que indica que o fluxo de dólares do período de 1965-70 continuou inflacionando os outros países, mas não mais os Estados Unidos.

O grande culpado da liquidez excessiva foi, evidentemente, o déficit do balanço de pagamentos dos Estados Unidos, centro de reserva do sistema. Não foi, porém, o único culpado; houve também uma certa diversificação de reservas em outras moedas além do dólar, como a criação de moedas no mercado euromonetário. Só a Grã- Bretanha recorreu a créditos internacionais de US$ 8 bilhões para financiar seus deficits, o que naturalmente implicou em criação monetária pelos bancos centrais dos países que lhe deram créditos, expansão essa, diga-se porém de passagem, ainda muito menor que a praticada pelos ditos bancos centrais para financiar os enormes deficits dos Estados Unidos, sustentando a paridade do dólar.

Assim, os Estados Unidos, estavam exportando inflação, não em conseqüência da inflação de seus preços internos, mas através de seus enormes deficits do balanço de pagamentos. Esses deficits não provinham somente de capital exportado pelos Estados Unidos, apesar de seu enorme vulto. Provinham também do déficit do seu balanço comercial, oriundo da reconstrução econômica da Europa e do Japão, que passaram a explorar o grande mercado americano. Em 1960, a renda média per capita na Alemanha eqüivalia a 44% da americana; em 1970 subira para 61%; em 1973 irá para 85%.

O princípio de que as questões da economia interna dos países sobrelevam as considerações do balanço de pagamentos foi várias vezes afirmado nos Estados Unidos, Burns dizia em Montreal, maio de 1972 que "nenhum país se conformaria com uma substancial agravação de sua taxa de desemprego para reduzir seus deficits no exterior" Antes, portanto, de formular qualquer novo Estatuto monetário, é indispensável criar um "mecanismo capaz de controlar esses enormes fluxos de capitais".

De outro lado o restabelecimento do equilíbrio do balanço de pagamentos em conta corrente dos Estados Unidos é processo que pede uns dois anos.

Nesse meio tempo importa amortecer a especulação monetária. As reservas para o financiamento do Comércio são mais do que amplas.

A reunião de Nairóbi nunca poderá dar solução imediata a esses problemas. Ela pode é servir para uma tomada de consciência e para descortinar os rumos de uma solução dentro de poucos anos."

Rio de Janeiro, 21 de Setembro de 1973


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