A Desordem Monetária Internacional

Varican

17 de setembro d 1973
 

A Desordem monetária internacional


 Eugênio Gudin

Introdução do Professor Ricardo Bergamini

Em 03.11.99 escrevi um artigo intitulado "A Crise Cambial Brasileira", o qual encontra-se disponível na URL http://orbita.starmedia.com/~varican , ou poderá ser solicitado diretamente ao autor através de e-mail. Em dois dos parágrafos dizia eu:

"Não há mistério na produção de depósitos em eurodólares. O processo é o mesmo, quando um banco no lado leste da Quinta Avenida em Nova York transfere fundos para uma associação de poupança ou empréstimo, no lado oeste. A única diferença básica é que o eurobanco em Londres fica do outro lado do Atlântico, e não do outro lado da rua.

Os depósitos em eurodólar estão fora dos controles das autoridades monetárias americanas, bem como das autoridades dos países onde esses bancos operam, gerando um efeito multiplicador de empréstimo e, por conseguinte, aumento de base monetária mundial, isto sem entrarmos em detalhes de ser um mercado infectado de transações ilegais de toda ordem. Com isso a liquidez atual de recursos no contexto mundial são de eurodolares, e não, de dólares americanos. Os Estados Unidos têm como objetivo monetário evitar que esses (dólares falsos) contaminem sua economia, para isso usam a mais antiga política econômica do mundo de transferirem os seus problemas para seus vizinhos, incentivando que esses recursos transitem de forma voláteis na procura de ganhos fáceis e rápidos, nos países subdesenvolvidos, recursos estes com os quais a maioria dos países subdesenvolvidos estão administrando suas economias. Imaginem senhores o volume de dólares falsos existentes no mundo, gerado com base no efeito multiplicador de crédito do eurodólar, totalmente livres de controles, durante mais de vinte anos. Esse recursos ficarão circulando, por muito tempo, nas economias mais frágeis causando os estragos os quais todos temos conhecimento".

O principal objetivo deste trabalho seria o de demonstrar que os artigos do mestre Gudin foram escritos e publicados em um período dito de censura e arbítrio dos governos militares, em plena vigência do AI 5, num jornal do padrão do "O Globo" do Rio de Janeiro cabendo o seguinte questionamento: Na atual Democracia Meia-Sola Brasileira o mestre Gudin teria espaço na imprensa?

Outro objetivo da série Gudin seria o de comprovar que o Brasil já foi respeitado no contexto mundial, pelos valores intelectuais e morais de nossos homens, mesmo sendo brasileiros natos, fato impossível na atualidade sem título de uma universidade americana. Processo claro de colonização, haja vista espaços concedidos pelos meios de comunicação à estrangeiros, escrevendo, julgando, impondo, condenando sobre problemas brasileiros. Vejamos o que escrevia o Mestre e Professor Eugênio Gudin em seu artigo no "Jornal O Globo" do Rio de Janeiro, publicado em sua edição do dia 17 de setembro de 1973, com o título "A DESORDEM MONETÁRIA INTERNACIONAL":

" O pecado original que deu lugar à crise monetária internacional que ainda perdura foi, como se sabe, o de terem os Estados Unidos abusado do privilégio de que gozava o dólar, de ser também moeda internacional, como tal recebido e aceito pelo mundo afora. Os Estados Unidos esbaldaram-se despejando dólares no mundo através da guerra do Vietnam e de enormes investimentos na Europa, além do fluxo habitual de turismo. A enorme massa de dólares que ficou ricocheteando pela Europa de país a país tem grande responsabilidade na inflação que se infiltrou na Europa onde atingiu 7% e 8% e mais ao ano, em países de ordem monetária tradicional como Suíça e Alemanha Ocidental.

O que há de curioso na presente conjuntura é que o dólar se depreciou muito mais internacionalmente do que dentro dos Estados Unidos. A taxa de câmbio atual do dólar em termos de marco alemão (julho de 1973) é de apenas de 2,38 marcos por dólar, mas um dólar nos Estados Unidos tem um poder de compra equivalente a 3,17 marcos. Igualmente, a taxa de câmbio na Suíça é de 2,86 francos suíços por dólar, entretanto um dólar compra nos Estados Unidos o equivalente a 3,90 franco suíços.

É um caso típico de desvio da paridade do poder de compra, oriundo de itens outros que não os referentes a mercadorias, especialmente transferencia de capitais.

A inflação nos Estados Unidos, a partir de 1965, foi em parte uma inflação de demanda oriunda de vastos deficits orçamentários (RS$ 25 bilhões em 1972, ora estimado em US$ 15 bilhões para 1973), e em outra parte, uma inflação de custos por elevação excessiva de salários em anos recentes (ferroviários 42% em 42 meses, siderúrgicos 30% em 3 anos, General Motors, etc), além da inflação de caráter internacional oriunda das recentes desvalorizações do dólar que encarecem os preços das mercadorias importadas.

Mas a inflação na Europa, oriunda basicamente da expansão de crédito vinda do excesso de dólares flutuantes, não ficou atrás da dos Estados Unidos.>

O atual desequilíbrio monetário internacional é devido muito mais aos movimentos de capitais do que às disparidades inflacionárias entre os Estados Unidos e a Europa. Os Estados Unidos, aparentemente mais preocupados com sua atividade econômica interna do que com seu balanço de pagamentos, mantém taxas de juros reputadas baixas, pouco atraentes portanto para dinheiro do exterior. Por outro lado, a falta de confiança no dólar fez com que a esperada repatriação de dólares depois da desvalorização não se verificasse. A demanda de dólares por parte das empresas americanas e das empresas multinacionais, bem como dos árabes do petróleo, não tem correspondido à expectativa.

Do lado das mercadorias (balanço de comércio) a situação está melhorando com o grande encarecimento dos artigos importados à nova taxa cambial; por exemplo, um Volkswagen que custava US$ 1.900,00 passou para US$ 2.300,00. Os algarismos do balanço comercial continuam a melhorar conquanto as exportações não tenham tido o impulso que se poderia esperar. Por outro lado, a importação de petróleo cresceu em volume e em preço; os turistas americanos continuam a voar para o exterior mesmo com preços vinte e cinco por cento mais altos; 600 mil militares no estrangeiro e os empresários americanos continuam a exportar capitais.

Em artigo escrito, neste jornal, em setembro do ano passado, sobre a crise monetária internacional, eu dizia:

"O problema não é fácil nem de rápida solução. Exige muito tempo, talvez anos para sedimentar-se em um consenso generalizado"

A hipótese de nova volta ao padrão-ouro está fora de cogitação. A crise atual, se de um lado desprestigiou o dólar, serviu, de outro, para mostrar como o ouro é sujeito às influências da especulação e das variações do volume produzido, o que o torna impróprio para servir de padrão de valor para todas as moedas.

Donde se vê que as perspectivas de curto prazo não são animadoras. Nem o projeto Nixon round, de reduções tarifárias, nem a reunião de Nairóbi do FMI, em setembro, nem a Comissão dos Vinte (nem que fossem 40) solucionarão o caso.

O único remédio é o esforço persistente - sobretudo dos Estados Unidos - para restabelecer a confiança no dólar e o equilíbrio de seu balanço de pagamentos, a nível da taxa cambial que for.

Vencida essa primeira etapa é que se poderá organizar um novo esquema monetário internacional".

Rio de Janeiro, 17 de Setembro de 1973
 


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