Varican

25 de junho de 2001


Quem tem medo do FMI?


Adriano Benayon*


Quem tem medo do FMI, do Banco Mundial e das demais instâncias da "comunidade financeira internacional", esse eufemismo usado para designar a oligarquia transnacional? O partido dito dos trabalhadores, PT, certamente tem. Haja vista o recente debate sobre o programa partidário e as entrevistas de, entre outros, Aloísio Mercadante.

Em todos os países, as condições sociais e econômicas têm melhorado tanto mais, quanto menos eles acatam as receitas do FMI/Banco Mundial. China e Índia são casos de melhoras substanciais. A própria Rússia, depois de deixar-se triturar pela política econômica da globalização, começa a recuperar algo, distanciando-se dela. Decidiu suspender pagamentos da dívida externa, sem que nada de mau acontecesse. A oligarquia globalizante tem sido desobedecida até mesmo por países menores e não dotados de mísseis nem bombas nucleares, como Malásia, Quênia, e Zimbabwe.

Na América Latina, porém, os povos, embora prontos a reagir, assistem, com desânimo, aos preparativos de seu próprio funeral, como vem ocorrendo na Argentina, muito evidentemente, e também no Brasil. Vê-se claramente o nexo causal entre o crescimento da submissão política ao estrangeiro e a conseqüente deterioração sócio-econômica.

Confortável com o sistema de poder governado pela oligarquia estrangeira, o PT apresenta-se, perante ela, comportado, como um postulante a emprego em empresa multinacional, ansioso em mostrar que tudo fará para servir àquele sistema. Para o PT as dívidas externa e interna são "administráveis", os contratos têm de ser cumpridos, os impostos em cascata devem ser mantidos, a privatização em si não é de questionar. Em relação a esta, o PT propõe apenas mudanças em critérios, portanto adjetivas.

A única recomendação pretensamente contrária à política de FH/Malan - leia-se do FMI - é atenuar a proibição aos investimentos das empresas estatais, o que, entretanto, não tem qualquer chance de se tornar realidade, enquanto perdure o modelo dependente. Continuando as transferências das transnacionais ao exterior, os sobrepreços nos bens importados e nas despesas das subsidiárias das transnacionais no exterior, e continuando a crescer as dívidas e seus juros, as estatais são cada vez mais chamadas a contribuir para o aumento do superávit nominal do orçamento, mantendo recursos financeiros ociosos. O superávit nominal compensa só em parte o déficit decorrente dos juros e das demais despesas de interesse da oligarquia concentradora. Ora, como esse déficit não cessa de crescer, aquele superávit tem de aumentar, por exigência do FMI. E isso, não para equilibrar o orçamento, mas para que o desequilíbrio causado pelas despesas financeiras não atinja logo o nível da bancarrota total. Para que esta seja adiada - e ela não seria tão grave assim, pois é só financeira - o que se faz sempre é cortar na carne do País: restringir cada vez mais sua capacidade produtiva, transferir cada vez mais patrimônio para empresas da oligarquia concentradora.

Os investimentos das estatais sempre geraram produção e patrimônio para o Brasil. A supressão deles não foi decretada por acaso, mas pela lógica do sistema dependente. São, pois, ilusórias as alternativas sugeridas por economistas, da "oposição" ou não, para atenuar aspectos odiosos desse sistema. De fato, aceito o modelo, todas as "alternativas" acarretam mais prejuízos do que benefícios. O exercício, além de estéril, é masoquista. A entropia a que conduz o sistema faz aumentar, além do déficit interno, também o externo (transações correntes com o exterior). Este leva a incentivar a entrada de capital estrangeiro, tanto os empréstimos do FMI, Banco Mundial, etc., que impõem as condicionalidades, subordinando totalmente a política econômica, como os investimentos diretos. Estes são alavancas de saídas de recursos do País. Ou seja, quanto mais capital estrangeiro entrar, mais o País se descapitaliza e mais acentua sua dependência. E assim, ad infinitum.

Leio agora uma quilométrica entrevista do Sr. Lula ao Jornal do Brasil (24.06.2001). O sistema, é claro, dá espaço irrestrito aos que lhe agradam. O presidente do PT continua "acreditando" em melhorar as condições sociais do País sem tocar nas causas da deterioração dessas condições. Lula afirma desejar o capital estrangeiro. Refere-se uma só vez a multinacionais (transnacionais), e porque foi perguntado. Louva-as, repetindo, como faz há mais de 20 anos, que elas tratam os trabalhadores muito melhor (sic) do que as nacionais. Diz, mas não prova. Omite as demissões em massa das transnacionais e nem sonha em entender que as transferências delas ao exterior fazem, em poucos anos, o país perder mais de 10 vezes o número de empregos por elas aberto. Afirma, como dirigente político, julgar que um país precisa de indústria nacional, forte, competitiva. Prefere ignorar que, com as transnacionais aqui dentro, e até subsidiadas, a indústria nacional vem sendo dizimada pelo modelo desejado pelo PT.

* Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, autor de "Globalização versus Desenvolvimento"

e-mail: benayon@solar.com.br


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