Varican

11de julho de 2000


Privatizações. Vale Rio Doce: Oceano de Lama - I


Adriano Benayon*


A oligarquia mundial deu um grande passo, em 1954, para reconquistar, por inteiro, a economia brasileira, ao promover a destituição do presidente Getúlio Vargas, explorando suas vulnerabildades. Ela fez exacerbar sentimentos da classe média, e de militares, que dela fazem parte, com intensas doses de ideologia, servindo-se dos principais órgãos da imprensa. Vargas não se interessava por viagens ao exterior, nem lá tinha contas bancárias. Não obstante, a campanha repetia incessantemente a expressão "mar de lama". Notável, que não se use hoje tal metáfora, de longe insuficiente para evocar a ciclópica corrupção atual, que decorre do modelo econômico implantado nos últimos 45 anos e preside à "política econômica". Enganam-se os que falam de 500 anos de periferia, pois houve no País, por vezes, decisões autônomas, especialmente dos anos 20 aos 50. E, mesmo nos tempos mais humilhantes do passado, o Brasil nunca sofreu saque comparável ao dos últimos dez anos, corolário forçoso do controle que as transnacionais impuseram sobre a produção, os mercados e, por via de conseqüência, sobre as decisões políticas.

Na corrupção sistêmica, as "privatizações" ocupam lugar de destaque. Em junho e julho de 1997, publiquei artigos nos quais demonstrei ter a Vale do Rio Doce sido "privatizada" a preço negativo. Do lado da venda, um patrimônio incalculável, em relação ao qual a discussão só se podia travar sobre trilhões, não de reais, mas de dólares. No lado da compra, a bagatela de R$ 3 bilhões pelo controle da mega-empresa. E nem isso foi pago, pois parte foi financiada, parte foi liquidada com créditos podres, e a União obrigou-se a continuar pesquisando minérios em benefício dos "adquirentes". Para que estes economizassem mais - independentemente das compensações financeiras superiores ao preço  o "governo", comandando também pelegos dos fundos de pensão de estatais, fez um "acordo" de acionistas. Por ele, a União renunciou por inteiro a interferir na gestão da mega-empresa, ainda que permanecendo com a maior parte das ações.

Quem são os beneficiários imediatos da monumental negociata? Agentes financeiros residentes no exterior e agentes-laranja ( tudo a ver com o desfolhante ), residentes no País. Entre estes, Steinbruch, então ligado ao "primeiro filho". Esse laranja apresta-se agora a alienar as ações da Vale, para ficar com toda a Companhia Siderúrgica Nacional ( CSN ), igualmente "comprada" nas ações entre amigos denominadas leilões de privatização. Ele está também passando sua parte na Light à Electricité de France, a qual já controla aquela ex-estatal, símbolo secular da corrupção inerente ao modelo, que combina investimentos estatais com propriedade privada estrangeira. Agora, para maior escárnio, o controlador é uma estatal francesa. A "privatização" é uma fraude para espoliar o patrimônio dos brasileiros: se for para tirar deles e dar para estrangeiros, pode ser em favor de uma estatal. O surrealismo atingiu tal grau, que o próprio laranja, e com razão, critica outras doações de estatais do setor siderúrgico à USINOR, francesa, que ficou com as estratégicas CST ( Tubarão ) e Acesita ( aços especiais ). Na EMBRAER e em outras empresas estratégicas, a golden share, para manter algum poder decisório com a União, é letra morta e objeto de ridículo. Os que mandam são estrangeiros.

Com a iminente saída do mencionado laranja, o controle da Vale atualmente está com a Bradespar, cujo executivo, Agnelli, estaria no comando da mega-empresa. A Bradespar é subsidiária do Bradesco ( também parte da negociata de 1997 ), não sendo de excluir que se trate de agente-laranja. O mega-banco norte-americano, Bank of América ( B.A ) / Nations Bank também participa da holding controladora da Vale ( Valepar ). O Nations, adquirido pelo B. A, teve papel destacado na jogada de 1997. Outro partícipe do conluioé o manipulador financeiro Soros, que tem 50 % do Sweet River Fund, detentor de 11,5 % da Valepar, sendo 50 % de dois bancos de Wall Street ( Goldman & Sachs e Lehman ). Soros, segundo a Gazeta Mercantil ( 05.07.2000 ), está em vias de vender sua participação a mega-mineradoras britânicas, sediadas Londres, África do Sul e Austrália. O objetivo dessas líderes do cartel mundial da mineração é, desde sempre, assumir o controle da Vale Rio Doce. Os laranjas serviram para realizar a cartada em vários tempos, dada a comoção que teria causado a absorção imediata, em 1997, da Vale pelo cartel.

É clara a essencialidade estratégica de a Vale ser estatal. Ela responde por mais de 20 % da produção mundial de minério de ferro e por 30 % da produção mundial de pelotas de ferro, além de ter reservas fabulosas. Mesmo como estatal, sob "governos" manipulados por grupos estrangeiros, a Vale exportava o minério de graça ( e continua assim ), seus lucros advindo da siderurgia, alumínio, papel e celulose. Com a "privatização" da Vale, o Brasil perde a perspectiva de escapar ao mesmo destino de Angola, Zaire e países menores, condenados, pelo controle externo de suas economias, a deixar extrair seus recursos ao bel prazer e ao preço determinado pelo cartel mundial. Este, obviamente, não deixará de fazer sua parte: levar aos paraísos fiscais, os fabulosos lucros auferidos nos mercados dos países mais industrializados a partir da matéria prima grátis colhida nos "subdesenvolvidos". Outro caminho do cartel para engolir a Vale são os ADR-2, ações negociadas na Bolsa de Wall Street, pelo ridículo preço de "mercado". Isso é para ser esmiuçado no próximo artigo.

* - Adriano Benayon, Doutor em economia, é autor de "Globalização versus Desenvolvimento".

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