Varican

21 de julho de 2000


Vale do Rio Doce : Oceano de Lama - II


Adriano Benayon*


Em 02 de junho de 1999, Hélio Fernandes publicou, na Tribuna da Imprensa, informações sobre entendimentos para consolidar a transferência ao capital estrangeiro do controle sobre a Vale Rio Doce. Agentes: Steinbruch ( CSN ), ex-empregador do "primeiro filho", e Wilson Brumer, antes presidente da Vale, estatal, hoje representante da Billiton. Esta é candidata a dominar a Vale. Outras são a Gencor e a Anglo-American, como aquela, governadas por capitais britânicos e instaladas na África do Sul. Não se trata de disputa, mas, sim, de lance das três, em comum acordo. Elas não concorrem entre si, são interligadas.

A candente atualidade do assunto reponta agora com a aquisição pelo Bank of América (B.A.) das ações da Vale obtidas pelo manipulador financeiro G. Soros em 1997. O B.A., representado no Brasil por J. Pio Borges, notório ex-diretor e ex-presidente do BNDES, já possuía 7% da Valepar, a holding que detém o controle da ex-estatal. O B.A. passa a ter 18,5 %, ou 21,5 % com os 3 % do Opportunity. Ele está negociando as ações com as mineradoras estrangeiras. E, há menos de um mês, iniciaram-se em Wall Street, as transações com ADR-2 (recibos de depósito americanos), da Vale. Esses provêm das ações ( eram 32 % das ordinárias com direito a voto ) de propriedade da União, detidas pelo BNDES, parte das quais tem sido vendida no mercado financeiro brasileiro, a que os estrangeiros têm acesso.

Os ridículos R$ 3,3 bilhões, quantia nominal do "leilão" de 1997, permitiram à Valepar controlar a companhia com 26,7 % do capital total ( 41,7 % do capital votante ). O "valor de mercado" permanece ínfimo. Portanto, apoiadas no poder financeiro e político - que implica gastar quase nada e adquirir tudo - as mineradoras estrangeiras podem, facilmente, comprar o que lhes falta para tornar-se senhoras absolutas da Vale Rio Doce, seja nas Bolsas, seja de Steinbruch ( este tem 25 % da Valepar ). Não é, ademais, de excluir que elas obtenham ações do Bradesco e da Previ. Pelo "acordo" de acionistas, as ações dos fundos não dão direito a voz nas decisões da empresa, mas isso pode mudar, se forem vendidas.

Para não se interessar pelo controle só sendo parte passiva da colossal corrupção inerente ao modelo econômico e político reinante no País. Quem fazia a conexão entre o Executivo e os fundos de pensão, partícipes de todas as "privatizações"? Segundo se informa, um certo E. Jorge, ex-ministro e ex-chefe de gabinete do titular do Executivo Federal, além de coordenador-tesoureiro da reeleição. A própria União, pródiga alienante do patrimônio da sociedade por cujos interesses tem o dever de zelar, cedeu o controle da Vale, embora ficando com quantidade de ações maior do que os laranjas "adquirentes". Ou seja, os fundos de pensão e a União têm a maioria das ações e ficam passivos como se fossem minoritários. E que dizer da qualidade estratégica e do imensurável valor, dados por nada?

Esses fatos demonstram, de sobejo, a corrupção sistêmica, inerente ao modelo. Dela fazem parte, no caso:

1) o ex-ministro;
2) o "empresário" presenteado com a CSN, Vale, etc.;
3) o ex-presidente da Vale, hoje na mineradora britânica;
4) o ex-presidente do BNDES, a serviço, agora declarado, do Bank of América e, ainda por cima, posto no Conselho da Vale;
5) o Executivo. Na realidade, todo o sistema de poder. A dimensão e a natureza fraudulenta dessa negociata superam as de qualquer outra, em toda a história mundial. Não lhe chegam aos pés os negócios da China, os de Suez, nem os do Panamá. A imprensa verte rios de tinta sobre a obra do TRT de São Paulo, mas, perto das privatizações, esse desvio de verbas cai para o vulto de um furto banal, relegáveis a poucas linhas na página de fatos diversos.

A sociedade brasileira precisa estar alerta diante do futuro que lhe reservam. Para ter uma idéia, veja-se o que ocorre na República Democrática do Congo (ex-Zaire). Sofreu uma "revolução" em 1996/97, promovida por mineradoras, a qual pôs Kabila no governo. Elas usaram os exércitos de Ruanda e Uganda. Em Ruanda já haviam feito uma "revolução". Em cada uma, os mortos passam de um milhão, e os internados em campos de concentração são dessa ordem. Kabila não fez tudo que o cartel deseja. Resultado: Kisangani, província rica em diamantes, ouro e madeiras, foi invadida por Ruanda e Uganda, cada um ocupando uma região. Isso é só um flash para começar a educar os iludidos que imaginam que:

a) os Bálcans, o Oriente Médio e a África sejam conturbados por natureza;
b) o FMI e Banco Mundial nada tenham que ver com a origem desses problemas;
c) o controle estrangeiro sobre a produção seja compatível com a liberdade dos cidadãos.

* - Adriano Benayon, Doutor em economia, é autor de "Globalização versus Desenvolvimento".


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