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Segunda-feira, 3 de Julho de 2000


O Palavrão da vez


Joelmir Beting


Intelectuais ideologicamente desempregados pela queda de todos os muros continuam costurando a satanização do que eles chamam de "modelo neoliberal". Sim, em livros e ensaios, simpósios e passeatas, certa esquerda acadêmica serve-se do alegre trânsito na mídia para xingar a mãe da globalização, da competição, da modernização, da desestatização, da desregulamentação, da informatização e até da estabilização.

Numa palavra: exclusão. Sim, exclusão de pessoas, famílias, empresas, profissões, empregos, anseios e nações. A dialética militante avisa que a globalização é o estado terminal da acumulação capitalista no plano econômico. No plano político, a globalização nada mais é que o estágio superior do imperialismo americano, fantasiado de neoliberalismo. Sim, aviado pelo tal de Consenso de Washington, sob encomenda do Departamento de Estado. 

Novo palavrão da clicheria enrustida, a globalização é apontada até mesmo pelos burocratas do FMI e do Banco Mundial como culpada por todos os males do mundo: miséria, violência, corrupção, desemprego, desesperança, depressão, narcotráfico e Aids. Nada disso existia neste nosso vale de lágrimas antes da queda do Muro de Berlim, derrubado pela mão invisível do monoteismo de mercado.

Quanta sandice! Esses mesmos posseiros da História perderam oito décadas queimando papel e saliva na denúncia científica das contradições naturais do capitalismo. Nenhuma palavra sobre as contradições letais do comunismo disfarçado de socialismo. Que veio abaixo da noite para o dia, literalmente, sem que tenha levado um único tiro, um único manifesto, uma única passeata, uma única greve geral. Envenenou-se com a própria saliva, simplesmente. 

O colapso soviético resultou, não do triunfo capitalista, mas do fiasco comunista. Um fracasso adubado por 45 milhões de cadáveres e por uma devastação ambiental sem paralelo nos desvãos ocidentais do capitalismo selvagem. O problema é que nove em cada dez "historiadores marxistas", com as brilhantes cabeças enterradas nas areias do fanatismo ideológico, não registraram os sinais nem os rasgos da erosão intrínseca do sistema. 

O sovietólogo francês Charles Bettelheim não se deixou lavar o cérebro. Em "Problémes Théoriques e Pratiques de la Planification" (1952), vaticinou a falência econômica da URSS sob a casamata de um "sistema de poder" tido como invulnerável. Escreveu: "Não se deve confundir governo de comunistas com sociedade do comunismo nem tomar como Estado socialista o que não passa de capitalismo de Estado - justamente a pior forma de capitalismo." 

Os intelectuais progressistas ainda estão nos devendo uma explicação convincente para a derrocada da economia de comando. Eles desconversam sobre o assunto, levantando enorme poeira metafísica sobre as turbulências da economia de mercado. 

Eu mesmo já escrevia, em "Na Prática a Teoria é Outra"(1973), remontando tese que desenvolvi na USP, nos anos 60, sob orientação do professor Lourival Gomes Machado: o socialismo é um projeto; o capitalismo é um processo.

Quem me deu a luz no túnel foi Gunnar Myrdal, numa entrevista que me concedeu em Estocolmo (1970). Textualmente: "A socialização da produção, via estatização, não funciona. A socialização do produto, via tributação, é o caminho." 

Gunnar Myrdal (1898-1987) ganhou o Prêmio Nobel de Economia (1974). E o "socialismo fiscal" fez da Escandinávia o endereço da melhor qualidade de vida do mundo - desde os anos 60.  


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