Varican

Um mestre e seus aplicados discípulos


Jorge Baptista Ribeiro


Visitando uma livraria que comercializa livros usados, deparei-me com um livro cujo título me despertou aguçada curiosidade: Comando Vermelho - A História Secreta do Crime Organizado, de autoria de Carlos Amorim. Nessa obra, pude verificar que o autor, na sua narrativa sobre a História do Comando Vermelho, citava procedimentos dessa facção criminosa, perfeitamente identificáveis como técnicas operativas de guerrilha urbana. 

Sem negar o valor da obra, no que possa contribuir para à História e, conseqüentemente, para aprofundados estudos sobre a criminalidade, a par dos meios para combatê-la, surgiu-me uma indagação: qual ou quais seriam as razões do autor para deixar de apontar, de modo conclusivo, como dolosa obra de mestres no assunto, a absorção, por até então, criminosos comuns, dos ensinamentos preconizados nos manuais sobre técnicas de guerrilha se, por outro lado, declara no seu livro que tais ensinamentos práticos foram absorvidos e a realidade dos nossos dias patenteia a ação técnicamente organizada, dos bandos criminosos, cada vez mais sofisticada e eivada de justificativas, nitidamente, de cunho político-ideológico? 

Sem me aprofundar nesse mérito, a inegável verdade é que a ciência ainda não reconhece a absorção de conhecimentos por "osmose" como alega Carlos Amorim ao dizer que a absorção se deu de modo natural, por contatos fortuitos entre presos políticos e criminosos comuns, durante cerca de 10 anos, no Presídio da Ilha Grande no Rio de Janeiro. 

Ainda em contradição, Carlos Amorim, deixa claro no seu escrito que não se trata de novidade, transformar bandidos em militantes revolucionários, haja vista a narrativa do líder da Intentona Comunista de 1935, no nordeste, Gregório Bezerra, que, em suas memórias, se ufana de ter facilmente aliciado para suas fileiras guardas penitenciários e bandidos. 

Corroborando a minha tese de que a estrutura criminosa organizada e politizada não foi milagre do Espírito Santo, encontrei estampadas na página 255 do livro de Amorim, as palavras de William Lima da Silva, prisioneiro político do Presídio da Ilha Grande no Rio de Janeiro, "carinhosamente" alcunhado como "O Professor" e homenageado como o fundador e patrono do Comando Vermelho que, em tom de regozijo, assim se manifestou: 

-"Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes que matarão vocês - a polícia - nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?"

Vale ainda dizer que esta enorme quadrilha, atualmente, disputa a bala, com outra organização criminosa, O Terceiro Comando, a hegemonia dos seqüestros, do tráfico de drogas, dos assaltos a bancos, dos furtos e roubos de carros, cargas, etc, no Estado do Rio de Janeiro, utilizando-se das mesmas práticas que Carlos Marighella ensina no seu Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano, traduzido e difundido em mais de 20 idiomas e encontrado pelo pesquisador como livro de cabeceira dos bandidos.

Estes dois bandos organizados e muito bem armados, desafiam governantes, elaboram suas leis e determinam comportamentos da sociedade carioca. Por oportuno, lembro que são essas quadrilhas as maiores responsáveis pelas apavorantes balas perdidas que, infelizmente, só geram protestos, manchetes, interdição de vias públicas, etc, quando a polícia sobe os morros entre os fogos dos marginais para fazer cessar a briga entre as quadrilhas e restabelecer a ordem. É incrível que assim seja, porém, é a dura verdade. 

Não posso deixar de mencionar que o poder de intimidação dos bandidos é de tal ordem que chega ao ponto de impedir obras do Governo do Estado, do município e de prestadoras de serviços públicos, nos morros da cidade.

Por uma dessas ironias do destino ou "mera coincidência", pouco tempo depois de ler o livro , encontrei, na página oito de O Globo de 24/06/2000, a transcrição da letra de um "rap" do grupo Facção Central que faz parte do terceiro CD desses propagandistas do crime e da violência que vem invadindo nossos lares, por intermédio de um videoclipe, apresentado pela MTV, como lídima e autêntica manifestação artística. O pior é que tem quem disto goste, isto é: tem bobo para tudo. Venderam cerca de 38 mil discos.

Matando a normal curiosidade dos meus leitores e, antecipadamente, me desculpando pela possível provocação da Síndrome do Pânico Coletivo, além de inevitáveis espasmos estomacais que possam advir da sua leitura, atrevo-me a transcrever trechos da composição intitulada:

É UMA GUERRA ONDE SÓ SOBREVIVE QUEM ATIRA 

"Quem enquadra a mansão, quem trafica. Infelizmente o livro não resolve/O Brasil só me respeita com o revólver/ O juiz ajoelha, o executivo chora/ Para não sentir o calibre da pistola/ Se eu quero roupa, comida, alguém tem de sangrar/ Vou enquadrar uma burguesa/ E atirar para matar/ Vou furtar seus bens/ E ficar bem louco/ Seqüestrar alguém no caixa eletrônico/ A minha quinta série só não adianta/ Se eu tivesse um refém com o meu cano na garganta/ Ai não tem gambé para negociar/ Vai se ferrar, é hora de me vingar.

Se atentarmos para esse amontoado de sandices, aparentemente desconexas, podemos afirmar, sem dúvida de erro, que a fraseologia é eminentemente revolucionária e as cabeças dos seus autores armazenam ódio e desejo de vingança contra toda a sociedade. Por outro lado, nunca é demais assinalar-se que esses "poetas" não nasceram com tais idéias. Essa cantilena, incitadora, nossa velha conhecida , está, claramente, estruturada por princípios da luta de classes. Tem dono e difusores. Acredito que nem preciso dizer quem são e muito menos que bombardeiam, com rara eficácia, o nosso dia-a-dia, seja por insanos,"papagaios", seja pela imprensa escrita, falada ou como nesse caso, pela telinha da TV. 

Depois destes concretos exemplos de propaganda político-ideológica, fica claro que os alunos da Ilha Grande tornaram-se também professores para novas gerações e, em cadeia, propagaram-se idéias e ideais que vem, pela mão do crime organizado, infernizando a vida de toda uma população e estimulando a proliferação do crime desorganizado. 

É uma bola de neve, rolando montanha abaixo e que para dissolve-la, não mais urgem, já rugem, sérias, honestas, demoradas e substanciais ações, principalmente, no campo educacional – lato senso - pois paliativos demagógicos como melhoria da iluminação pública e outras baboseiras, constantes do Plano Nacional de Segurança Pública, recentemente divulgado como a oitava maravilha, só servem para facilitar o gasto, nem sempre honesto, do dinheiro público, bem como, para massagear o ego da turma do quanto pior, melhor que deve estar dando boas gargalhadas às custas de uma aflição nacional, perversamente fomentada.
 

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