Visitando uma livraria que comercializa
livros usados, deparei-me com um livro cujo título me
despertou aguçada curiosidade: Comando Vermelho - A
História Secreta do Crime Organizado, de autoria de Carlos
Amorim. Nessa obra, pude verificar que o autor, na sua narrativa
sobre a História do Comando Vermelho, citava procedimentos
dessa facção criminosa, perfeitamente identificáveis
como técnicas operativas de guerrilha urbana.
Sem negar o valor da obra, no que possa
contribuir para à História e, conseqüentemente,
para aprofundados estudos sobre a criminalidade, a par dos meios
para combatê-la, surgiu-me uma indagação:
qual ou quais seriam as razões do autor para deixar de
apontar, de modo conclusivo, como dolosa obra de mestres no
assunto, a absorção, por até então,
criminosos comuns, dos ensinamentos preconizados nos manuais sobre
técnicas de guerrilha se, por outro lado, declara no seu
livro que tais ensinamentos práticos foram absorvidos e a
realidade dos nossos dias patenteia a ação técnicamente
organizada, dos bandos criminosos, cada vez mais sofisticada e
eivada de justificativas, nitidamente, de cunho político-ideológico?
Sem me aprofundar nesse mérito, a
inegável verdade é que a ciência ainda não
reconhece a absorção de conhecimentos por "osmose"
como alega Carlos Amorim ao dizer que a absorção se
deu de modo natural, por contatos fortuitos entre presos políticos
e criminosos comuns, durante cerca de 10 anos, no Presídio
da Ilha Grande no Rio de Janeiro.
Ainda em contradição,
Carlos Amorim, deixa claro no seu escrito que não se trata
de novidade, transformar bandidos em militantes revolucionários,
haja vista a narrativa do líder da Intentona Comunista de
1935, no nordeste, Gregório Bezerra, que, em suas memórias,
se ufana de ter facilmente aliciado para suas fileiras guardas
penitenciários e bandidos.
Corroborando a minha tese de que a
estrutura criminosa organizada e politizada não foi milagre
do Espírito Santo, encontrei estampadas na página
255 do livro de Amorim, as palavras de William Lima da Silva,
prisioneiro político do Presídio da Ilha Grande no
Rio de Janeiro, "carinhosamente" alcunhado como "O
Professor" e homenageado como o fundador e patrono do Comando
Vermelho que, em tom de regozijo, assim se manifestou:
-"Conseguimos aquilo que a
guerrilha não conseguiu: o apoio da população
carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição,
fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três
milhões de adolescentes que matarão vocês - a
polícia - nas esquinas. Já pensou o que serão
três milhões de adolescentes e dez milhões de
desempregados em armas?"
Vale ainda dizer que esta enorme
quadrilha, atualmente, disputa a bala, com outra organização
criminosa, O Terceiro Comando, a hegemonia dos seqüestros, do
tráfico de drogas, dos assaltos a bancos, dos furtos e
roubos de carros, cargas, etc, no Estado do Rio de Janeiro,
utilizando-se das mesmas práticas que Carlos Marighella
ensina no seu Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano, traduzido e
difundido em mais de 20 idiomas e encontrado pelo pesquisador como
livro de cabeceira dos bandidos.
Estes dois bandos organizados e muito bem
armados, desafiam governantes, elaboram suas leis e determinam
comportamentos da sociedade carioca. Por oportuno, lembro que são
essas quadrilhas as maiores responsáveis pelas apavorantes
balas perdidas que, infelizmente, só geram protestos,
manchetes, interdição de vias públicas, etc,
quando a polícia sobe os morros entre os fogos dos
marginais para fazer cessar a briga entre as quadrilhas e
restabelecer a ordem. É incrível que assim seja, porém,
é a dura verdade.
Não posso deixar de mencionar que
o poder de intimidação dos bandidos é de tal
ordem que chega ao ponto de impedir obras do Governo do Estado, do
município e de prestadoras de serviços públicos,
nos morros da cidade.
Por uma dessas ironias do destino ou "mera
coincidência", pouco tempo depois de ler o livro ,
encontrei, na página oito de O Globo de 24/06/2000, a
transcrição da letra de um "rap" do grupo
Facção Central que faz parte do terceiro CD desses
propagandistas do crime e da violência que vem invadindo
nossos lares, por intermédio de um videoclipe, apresentado
pela MTV, como lídima e autêntica manifestação
artística. O pior é que tem quem disto goste, isto é:
tem bobo para tudo. Venderam cerca de 38 mil discos.
Matando a normal curiosidade dos meus
leitores e, antecipadamente, me desculpando pela possível
provocação da Síndrome do Pânico
Coletivo, além de inevitáveis espasmos estomacais
que possam advir da sua leitura, atrevo-me a transcrever trechos
da composição intitulada:
É UMA GUERRA ONDE SÓ
SOBREVIVE QUEM ATIRA
"Quem enquadra a mansão,
quem trafica. Infelizmente o livro não resolve/O Brasil só
me respeita com o revólver/ O juiz ajoelha, o executivo
chora/ Para não sentir o calibre da pistola/ Se eu quero
roupa, comida, alguém tem de sangrar/ Vou enquadrar uma
burguesa/ E atirar para matar/ Vou furtar seus bens/ E ficar bem
louco/ Seqüestrar alguém no caixa eletrônico/ A
minha quinta série só não adianta/ Se eu
tivesse um refém com o meu cano na garganta/ Ai não
tem gambé para negociar/ Vai se ferrar, é hora de me
vingar.
Se atentarmos para esse amontoado de
sandices, aparentemente desconexas, podemos afirmar, sem dúvida
de erro, que a fraseologia é eminentemente revolucionária
e as cabeças dos seus autores armazenam ódio e
desejo de vingança contra toda a sociedade. Por outro lado,
nunca é demais assinalar-se que esses "poetas" não
nasceram com tais idéias. Essa cantilena, incitadora, nossa
velha conhecida , está, claramente, estruturada por princípios
da luta de classes. Tem dono e difusores. Acredito que nem preciso
dizer quem são e muito menos que bombardeiam, com rara eficácia,
o nosso dia-a-dia, seja por insanos,"papagaios", seja
pela imprensa escrita, falada ou como nesse caso, pela telinha da
TV.
Depois destes concretos exemplos de
propaganda político-ideológica, fica claro que os
alunos da Ilha Grande tornaram-se também professores para
novas gerações e, em cadeia, propagaram-se idéias
e ideais que vem, pela mão do crime organizado,
infernizando a vida de toda uma população e
estimulando a proliferação do crime desorganizado.
É uma bola de neve, rolando
montanha abaixo e que para dissolve-la, não mais urgem, já
rugem, sérias, honestas, demoradas e substanciais ações,
principalmente, no campo educacional lato senso - pois
paliativos demagógicos como melhoria da iluminação
pública e outras baboseiras, constantes do Plano Nacional
de Segurança Pública, recentemente divulgado como a
oitava maravilha, só servem para facilitar o gasto, nem
sempre honesto, do dinheiro público, bem como, para
massagear o ego da turma do quanto pior, melhor que deve estar
dando boas gargalhadas às custas de uma aflição
nacional, perversamente fomentada.