|
23 de dezembro de 2002
A Bacia de Pilatos
Dartagnan da Silva Zanela *
Muitas das vezes nos indagamos sobre a origem do
mal na sociedade, no seio da vida humana. Apontamos para as chagas
sociais como se estas fossem a raiz de toda a violência e de
toda destruição, apontamos nosso dedo acusador para
as desigualdades sociais, para o sistema, como se todos estes
fossem os causadores dos males que assolam a humanidade desde o
princípio dos tempos, desde o tempo em que havia apenas o
silêncio primordial, antes do Verbo anunciar a Verdade.
E diante da perturbação que nos
assombra, que nos cerca, pergunto-me diante destas supostas causas
de todos os males, se alguma vez, meu caro leitor, quando você
esta infecto com alguma virose, o médico apontou para febre
e para constipação como sendo as causas da
enfermidade? Não? Então por que insistimos em
apontarmos para os sintomas dos males como se eles fossem a raiz
de todas as dores?
Acalmar a febre, pode tanto acabar com a
enfermidade como pode levar a uma piora do quadro, pois a raiz do
mal não está na febre, mas no interior do corpo do
enfermo e que por sua vez, não tão simplesmente o
agente causador da doença, o vírus no caso, mas sim,
a fraqueza do corpo que se permitiu contaminar.
Do mesmo modo, a vida em sociedade. O mal não
nasce do mundo exterior, ele habita nosso âmago. Enquanto
olhamos para o mundo exterior com nossos dois olhos, relegamos ao
desdém as falhas que habitam o nosso mundo interior, nos
esquecendo da passagem de São Mateus no cap. XXVII, 22-24,
onde o mesmo nos lembra da condenação de Cristo por
Poncio Pilatos.
Nós, homens, geramos nossos grilhões
e nos esquecemos deste feito e por orgulho e vaidade, culpamo-nos
uns aos outros por isso e em alguns casos, fazemos vistas grossas
diante dos males que estão em nossa volta por medo, de que
alguém perceba os nossos rastros turvos.
Mesmo passados 1969 anos, nós continuamos
como em um processo dialético a nos portamos como os
Judeus, que "democraticamente" condenaram Cristo e bem
como Pilatos, que por omissão, lavou suas mãos
diante do mal que estava diante de suas vistas. E fazemos tudo
isso, pelo simples fato de nos recusarmos a nos ver como culpados.
Mas culpa de que? De simplesmente sermos o que
somos, por sermos humanos e podermos escolher livremente o nosso
destino para o nosso bem e para nosso mal, levando nossos atos a
repercutirem para o bem e para o mal daqueles, que muitas das
vezes nós nunca iremos conhecer. Este é o preço
da liberdade: o risco da danação.
Neste dia 25 de dezembro em que celebramos o
nascimento do Salvador, até o dia, em que lembramos o nosso
erro e a Ressurreição daquele que padeceu no calvário,
meditemos nos conflitos que habitam nossa alma, ao invés de
fazermos vistas grossas, no embalo de uma nostalgia passageira.
(*) O autor é professor e ensaísta
Voltar |