Varican

18 de fevereiro de 2002


A insustentável leveza da má vontade


Dartagnan da Silva Zanela

"...A convivência com os homens perverte o caráter, especialmente os que não tem caráter." (F. Nietzsche)


Adolf Hitler em sua obra Mein Kampf diz-nos que, é mais fácil enganar o povo com grandes mentiras do que, com pequenas. É certo que este senhor de bigodinho de gradear... foi um crápula mas que, temos de concordar: neste trecho de sua obra (p. 153), ele disse uma grande e infeliz verdade. Do mesmo modo que um outro crápula que tinha a mania de ficar com a mão dentro da casaca, o Sr. Napoleão Bonaparte, havia dito que é muito mais fácil dominar os homens pelos seus vícios do que pelas suas virtudes.

Assim sendo, se voltarmos nossos olhos para as grandes promessas feitas ao léu veremos que estas nunca moveram montanhas, com toda certeza. Mas, por sua vez e não de forma insignificante, estas acabaram por deslocar multidões imensas a bestialização coletiva e nada mais. Doravante, o começo destes tipos de agravantes sempre foi desencadeado pelo véu púrpura que encobre a nossa retina, o véu da inveja. Do mesmo modo que nos lembra o filósofo Artur Schopenhauer, a raiz de muitos de nossos problemas é devido a nossa facilidade de confundirmos as virtudes com os vícios, as qualidades humanas com as falhas e vice-versa. Quando uma pessoa é econômica, achamos que ela é avarenta, mão-de-vaca; quando ela é rígida, dizemos que é injusta e autoritária ou, se ela é séria é metida a besta. Ou então, se ela é sincera ela é estúpida, grossa; se esta for auto-confiante ela é arrogante, esnobe e assim por diante. Pois bem, partindo deste princípio, as multidões só fazem isso e nada mais que isso. Confundem tudo visto que, elas não param para ponderar o que está ocorrendo, apenas vão na onda, como dizem a molecada. Certa vez uma Doutora em História amiga minha, havia me confessado após algumas garrafas de vinho que na época das diretas ela pulou a janela para ir nas manifestações. Ela não sabia ao certo o que era, dizia ela, mas parecia legal. Do mesmo modo que um outro Sr. que dizia-me outrora que quando ele era estudante ele, saia pelas ruas a protestar, a gritar as palavras de ordem, sem saber o que significava tudo aquilo. Ele dizia que estava lá apenas pela festa. Eu também, participei de manifestos e pior, eu achava que sabia o que estava fazendo. Acabei por me decepcionar comigo mesmo por não ver o erro em tempo.

Na maioria das vezes, as pessoas não desejam justiça mas sim e apenas a doçura do mel homérico da vingança, o que o oprimido mais deseja, no fundo de seu ser é apenas ocupar o lugar do opressor e por esta razão que, é mais fácil iludir o povo com mentiras colossais do que com as diminutas, controla-los pelos através de seus piores desejos do que através de suas mais elevadas qualidades. As multidões sempre são irracionais. E, antes que qualquer devoto de uma ideologia coletivista ou mesmo qualquer homo politicus sintam-se feridos em suas partes, sensíveis, visto que eles necessitam um rebanho de sonâmbulos que pensam estar acordados para se sustentarem em suas posições, voltemos nossos olhos para a história e vejamos alguns exemplos que mais do que comprovam o que eu estou tentando dizer.

A Revolução Francesa, por exemplo, com a brilhante idéia que os jacobinos tiveram, criaram a famigerada Ditadura do Terror onde foram mortos aproximadamente 40.000 pessoas em pouco menos de um ano, onde mais da metade destas pessoas foram executadas na guilhotina (criada nestes dias para estes fins, os espetáculos de "justiça revolucionária"), em praça pública, para o deleite do povo. Não havia coisa que os sans-culotte mais adorassem do que ver, a cabeça de um nobre ser decepada e depois exposta pelo carrasco. Os jacobinos sabiam que a inveja era maior que qualquer sentimento de justiça e através deste malicioso ardil conseguiram controlar o povo que, por algum tempo se esqueceu de suas promessas visto que, a ânsia maior da plebe francesa não era serem justiçados mas sim, apenas ver os vagabundos do palácio de Versalhes perderem suas cabeças e ficarem numa pior visto que o mel homérico da vingança é mais saboroso que a fria lâmina da espada da justiça. Não havia a necessidade de conquistarem uma vida melhor, bastava apenas que o que estava bem se ferra-se, ou vão me dizer que este sentimento escroto não permeia até hoje nossa sociedade?

O ser humano tem esta pitada de maldade intrínseca em sua alma, é incrível! Esta maldade que nos deixa cego para o mundo e para a sua complexidade. A preguiça é suave e com facilidade guia uma alma ao ódio desmedido e sem razão aparente visto que a ira trás um conforto muito mais rápido para os fracos do que as pedras do caminho da verdade. Um bom exemplo deste nosso aspecto doloso ouvi em uma conversa com uma pessoa que tenho profundo respeito, em uma conversa informal onde ela disse-me em poucas palavras o seguinte: se você chegar e resolver ir de casa em casa para convidar a comunidade para fazer um mutirão para arrumar algo, como por exemplo o gramado do clube dos trinta ( Clube de uma comunidade de Reserva do Iguaçu ), ou coisa deste gênero, você não conseguirá ninguém mas, se você ao invés disso passar de casa em casa falando: _ vejam só que vergonha esta situação do gramado do clube dos trinta, esta administração não serve para nada e blá blá blá, aí meu amigo, você pode ter certeza que você vai ser ouvido e será bem visto até. Será considerado alguém preocupado com o patrimônio público e poderá ser o novo presidente do clube e aí, aquele que o fora na gestão anterior passará a ser o novo homem preocupado com o bem estar dos associados.

Ai meu São João do pau oco, não sei onde reside o maior cinismo, se é na população que acredita nas ilusões por mero oportunismo ou nos oportunistas de ocasiões que sabem como manipular os ânimos dos medíocres. Já perceberam que neste país todo mundo pensa que é Santo? É um país de coitadinhos e de líderes injustiçados, mal compreendidos. Um país de mascaras de gesso onde o cinismo vasa pelas rachaduras de sua fantasia existencial. Não, então responda-me, quantas vezes você é sincera com as pessoas durante o dia? Quantas vezes você é sincera consigo mesma?

No fundo não passamos de queixosos cínicos. Cínicos ao ponto de acharmos os programas de auditório um lixo e seus apresentadores uns patetas mas, somos incapazes de desligar o televisor para fazer algo que julguemos ser mais elevado, visto que não sabemos o que poderia ser mais elevado. Aí, preferimos nos deleitar no sofá e falar mal do nosso mal gosto, visto que a televisão nada mais é que um espelho de Narciso pois, no fundo, não é que nós achemos os programas um lixo, é que nós adoraríamos estar no lugar dos sujeitos que lá estão.

Mas a inveja nunca se apresenta nua e crua frente a sociedade, não. A inveja é como um fungo e necessita de lugares úmidos e escuros para poder sobreviver. É como uma micose que nos come pelos garrões e como tal, ela é contagiosa e todos nós, corremos o risco de sermos infectados por ela e, para cura-la basta que tenhamos vontade de expurga-la visto que seu diagnóstico é fácil e seu tratamento mais ainda. Basta que sejamos capazes de olharmos para nós mesmos uma vez ou outra. Fácil não? O problema é que tem gente que acha gostosa aquela coceirinha que dá entre os dedos. Aquele que acredita em suas pequenas mentiras, acredita com facilidade nas grandes visto que não sabem mais diferenciar o verdadeiro do falso. Pensa que não há ninguém neste mundo que possa engana-los, a não ser eles mesmos.


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