No violento conflito ocorrido anteontem em Ananindeua - a 10
quilômetros de Belém, Estado do Pará -,
durante a tentativa de cumprimento de uma liminar de reintegração
de posse de área particular invadida, pode haver divergências
quanto ao número exato de feridos, mas não
há dúvidas sobre qual das partes envolvidas
levou a pior. Segundo a Polícia Militar, que para
o local levara cerca de 150 homens, 54 policiais saíram
feridos - um deles ficou cego, atingido por estilhaços
de uma bomba de fabricação caseira.
Segundo os dirigentes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
(MTST), do lado dos invasores 15 saíram feridos, de um
total de, pelo menos, 2 mil pessoas, que vivem no local. Só
deixou de haver uma tragédia, de proporções
muito maiores do que a dos 19 mortos de Eldorado dos Carajás
- o outro grande conflito, envolvendo a polícia paraense
e invasores de terras, em 1996 -, porque, desta vez, a Polícia
Militar recuou, quando viu que não poderia vencer
a resistência dos invasores sem grande derramamento
de sangue.
Para o comandante da força policial - que disse que
a polícia fugiu para não matar - e para o secretário
da Segurança Pública do Pará, a resistência
estava muito bem organizada, em moldes de guerrilha armada.
Haja ou não exagero em tais afirmações,
certo é que o que lá aconteceu não foi
uma reação espontânea, com utilização
apenas de foices, paus e pedras, para repelir a tropa policial.
O uso de barricadas, de coquetéis molotov, de bombas
de fabricação caseira e uma certa estratégia
de movimentação, por parte dos invasores da área,
indicavam uma boa preparação prévia, contra
tentativas de reintegração da área ocupada.
Quem viu as cenas exibidas pelas televisões pôde
comprovar isso.
Os líderes do movimento dos sem-teto que se encontram
no local - onde também parecem agir integrantes do Movimento
dos Sem-Terra - dizem que desconheciam a medida liminar de
reintegração de posse e que a polícia
já chegou atirando, não dando margem a qualquer
negociação. No entanto, insistem também
em dizer que não sairão da área em hipótese
alguma - "só mortos", como afirmou um deles. Se é
assim, mesmo que a polícia não "chegasse atirando"
e tentasse o diálogo, para cumprir a determinação
judicial, de nada adiantaria. Trata-se de uma clara recusa
em obedecer ao que diz a lei e em cumprir o que manda a Justiça.
Indague-se então: como resolver esse impasse? É
possível deixar-se que determinados grupos da sociedade
- sejam quais forem as razões que tenham, para tanto
- se isentem da obrigação de respeitar a Lei
e a Justiça?
Muito antes de o juiz da 2.ª Vara Cível de
Ananindeua ter concedido a medida liminar que provocou o violento
conflito de anteontem, essa mesma área - uma fazenda
particular de 80 hectares, que começou a ser invadida
há cerca de dez anos - já fora objeto de mandados
de reintegração de posse, nada menos do que quatro
vezes. Se, da primeira vez, o cumprimento da lei tivesse sido
imposto "para valer", será que se repetiriam esses episódios,
que colocam vidas humanas em permanente risco e acabam com
a paz das regiões? Sempre é bom se ter em mente
- e muitos parecem esquecidos disso - que de nada valem as
leis de um país se não houver uma Justiça
para aplicá-las e uma polícia capaz de obrigar,
inclusive pelo uso da força, ao cumprimentodas decisões
judiciais. Pois, se assim não fosse, perderia sentido
a organização do próprio Estado, deixaria
de haver uma sociedade, com seus valores e instituições,
para prevalecer a pura "lei das selvas", com indivíduos
ou bandos em situação de permanente conflito
pela sobrevivência, sem intermediações
ou tutelas. Por isso é que, na vida social civilizada,
sobretudo em um Estado democrático de Direito, é
inegociável a obrigação do respeito à
Lei e à Justiça (Para FHC et caterva lerem na cama).
Não se pode admitir, por outro lado, que a paz ou a
prevenção de tragédias só ocorram
por meio da fuga dos que têm por missão precípua
fazer cumprir o que diz a lei e o que manda a Justiça
- como é o caso dos integrantes das forças policiais.
Num país onde a polícia foge para não
matar, o crime organizado e o "negócio" do seqüestro
só podem prosperar.